Com a saúde mental no centro das relações de trabalho, a nova NR-1 amplia responsabilidades e exige uma atuação mais estratégica, preventiva e integrada das empresas.
Saúde mental deixa de ser uma pauta secundária
Durante muito tempo, o tema da saúde mental apareceu nas organizações como algo importante, porém secundário diante de metas, produtividade e resultados financeiros. Esse cenário vem mudando rapidamente. O crescimento expressivo dos afastamentos por transtornos psicológicos mostra que a questão deixou de ser apenas um assunto de clima organizacional e passou a impactar diretamente a sustentabilidade do negócio.
Dados do Ministério do Trabalho indicam que, em 2025, foram registrados cerca de 546 mil afastamentos por transtornos mentais, um aumento significativo em relação aos anos anteriores e praticamente o dobro do volume observado poucos anos antes. Esses números evidenciam que as empresas estão lidando com um fenômeno estrutural, não com episódios isolados.
O que muda com a nova NR-1
A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 amplia o escopo tradicional da prevenção de riscos ocupacionais. Além dos fatores físicos, químicos e biológicos, passam a ser considerados obrigatoriamente os riscos psicossociais, como assédio moral, sobrecarga, pressão excessiva e ambientes hostis.
Isso significa que o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) precisa agora:
• Identificar fatores que impactam a saúde mental;
• Avaliar a intensidade e a frequência desses riscos;
• Implementar medidas preventivas e corretivas;
• Monitorar continuamente seus efeitos.Inicialmente adotada em caráter educativo, a norma entra agora em uma fase de fiscalização efetiva, o que aumenta a urgência das adequações e coloca o tema definitivamente na agenda executiva.
RH no centro da estratégia organizacional
Diante desse cenário, o RH deixa de atuar apenas como executor de políticas internas e passa a desempenhar um papel de coordenação entre diferentes áreas. A adequação à NR-1 exige diálogo constante com jurídico, compliance, saúde e segurança do trabalho, além de forte envolvimento da liderança.
Essa atuação integrada é essencial porque muitos riscos psicossociais não estão ligados a uma única causa, mas a combinações de fatores como:
• Modelos de gestão excessivamente centralizadores;
• Cargas de trabalho mal distribuídas;
• Comunicação deficiente;
• Falta de autonomia ou clareza de expectativas;
• Ambientes competitivos ou pouco colaborativos.
Identificar esses elementos requer análise de dados, escuta ativa e disposição para rever práticas consolidadas.
Por que a abordagem precisa ser multidisciplinar
Especialistas em Direito do Trabalho e Saúde Ocupacional apontam que a saúde mental tende a ocupar posição central nas relações de trabalho nos próximos anos. A NR-1 atua como um marco regulatório que incentiva a prevenção. Mas sua efetividade depende da capacidade das organizações de transformar exigências legais em práticas consistentes.
Uma abordagem multidisciplinar permite:
• Reduzir riscos jurídicos e financeiros;
• Melhorar o clima organizacional;
• Diminuir absenteísmo e turnover;
• Fortalecer a marca empregadora;
• Aumentar produtividade e engajamento.
Ou seja, há um impacto direto tanto na conformidade quanto na competitividade.
Caminhos práticos para as empresas
A adequação à norma vai além de documentos formais, passando por mudanças reais na forma como o trabalho é estruturado. Algumas iniciativas que têm se mostrado eficazes incluem:
• Mapear fatores de estresse organizacional;
• Revisar cargas de trabalho e prazos críticos;
• Capacitar líderes em comunicação e gestão humanizada;
• Criar canais seguros de escuta e denúncia;
• Oferecer apoio psicológico estruturado;
• Monitorar indicadores de saúde e engajamento.
Quando essas ações são implementadas de forma consistente, a empresa não apenas atende à legislação, mas também constrói um ambiente mais sustentável no longo prazo.
Mais do que compliance, uma questão de sustentabilidade humana
A nova NR-1 não surge somente como um conjunto de exigências legais. Passa a ser um convite para repensar a forma como as organizações tratam o fator humano. Em um contexto de escassez de talentos, alta pressão por resultados e transformações constantes no mundo do trabalho, ambientes saudáveis tornam-se um diferencial estratégico.
Empresas que investem na prevenção dos riscos psicossociais tendem a ter equipes mais engajadas, maior capacidade de inovação e relações de trabalho mais estáveis. Além disso, reduzem custos associados a afastamentos, rotatividade e perda de produtividade.
Um novo papel para o RH
O RH passa a atuar como gestor do equilíbrio entre performance e bem-estar, garantindo que a organização evolua sem comprometer a saúde das pessoas que sustentam seus resultados. Essa mudança exige competências analíticas, visão sistêmica e capacidade de influenciar decisões estratégicas.
No fim das contas, a adequação à NR-1 não deve ser vista não só como uma obrigação. Mas como uma oportunidade de construir ambientes de trabalho mais humanos, resilientes e preparados para os desafios do futuro.

